domingo, 6 de julho de 2008

Julie, Julia e eu


Me apaixonei perdidamente, quero abandonar tudo e viver meu triângulo amoroso...
Anteontem, enquanto fazia uma das coisas de que mais gosto, passear pelas estantes de livros de culinária em uma boa livraria, me deparei com algo que, magicamente, se casa de forma brilhante com várias coisas que estão passando pela minha vida agora...
Mas, tenho que confessar, foi um daqueles encontros em que, com uma ponta de inveja inofensiva, pensamos: "droga, como isso não me ocorreu antes?!" Estou falando do lindo livro Julie & Julia - 365 Dias, 524 Receitas e 1 Cozinha Apertada, escrito por Julie Powell. O truque todo é o "desafio" proposto por Julie, uma fracasada aspirante a atriz, com um casamento estagnado, saldo negativo no banco e uma cotidiano maçante como secretária freelancer (não, não são estes os motivos pelos quais o livro se casa com meu atual momento, ainda bem), que resolve se dedicar a uma empreitada curiosa: reproduzir em casa, em um ano, as receitas de um dos mais famosos livros de culinária americanos, Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child. A senhora Child, já falecida, foi talvez a melhor amiga das housewifes daquele país, nas décadas de 40, 50, 60, tempo em que as amélias de outrora se dedicavam exclusivamente ao forno, ao fogão, aos filhos e ao marido (elas não eram amélias "emancipadas" como nós hoje em dia, que além disso ainda se dedicam ao trabalho, às contas, aos amigos, ao stress do cotidiano, às exigências e demandas dos outros, às próprias exigências, às aspirações e ambições frustradas, e que por isso tudo morrem de inveja daquelas amélias do passado - como diziam os Ramones: às vezes, "ignorance is bliss"...). Julia tornou-se um mito por ter introduzido nos lares americanos as técnicas da culinária francesa, em receitas clássicas e até certo ponto fáceis, mas extremanente sofisticadas e sedutoras. Foi uma espécie de Ofélia daquelas bandas, uma senhora que transmitia carinho, comforto, paz, sempre preocupada em explicar da melhor maneira o passo-a-passo dos preparos de uma forma que não desesperasse as espectadoras, que não as levasse ao fundo do poço por se acharem umas tontas sem cultura gastronômica e sem o mínimo traquejo para manejar utensílios básicos (como eu me sinto na maioria das vezes). Abaixo estão as duas moças, a "desafiante" e o "mito", Julie e Julia, e aqui (http://diversao.uol.com.br/ultnot/2007/12/11/ult4326u525.jhtm) está uma excelente resenha de Julie & Julia feita pelo site Uol.













Como adquiri o livro anteontem, ainda estou na página 51, mas já fui levada às lágrimas, já dei gargalhadas sozinha, já pensei e repensei tudo que fiz da vida até aqui (sim, livros de culinária, principalmente romances culinários, têm essa capacidade sobre mim...). Na medida em que a leitura for avançando, vou postando as partes que me chamaram atenção.
Além disso, e deixando de lado a sensação de ter tomado o bonde andando, ou, pior, de ter ficado pra trás depois que ele passou, vou tentar seguir os passos de Julie... Tenho inúmeros livros de receitas, faço até mesmo um caderno de receitas (daqueles com recortes e anotações que nossas avós faziam e deixavam pra nossas mães - que deveriam ter deixado pra nós, mas que queimaram todos junto com os sutiãs...), mas sempre me pego deixando tudo de lado e enfrentando as panelas sozinha, ou no máximo com minha memória. Tenho que confessar: não sou boa em seguir receitas... Leio, aprendo, anoto, tento memorizar, marco as páginas que me interessam com inúmeros papeizinhos (já fiz até mesmo um índice com todas as receitas, de todos os livros que tenho, que cativaram minha atenção, e até colei este índice na última página do meu caderno), mas na "hora h" vou sozinha pra cozinha. De tanto proceder assim, estou percebendo que começo a repetir a "mão", quer dizer, que estou me viciando em algumas receitas, em alguns temperos, em algumas maneiras de proceder. Então, inspirada em Julie, vou tentar começar minha própria empreitada, na medida em que o tempo, o bolso e a correria do dia-a-dia me permitirem: seguir o que está escrito nos livros, da maneira como eles indicam, com os ingredientes e técnicas determinados (nada de trocar filé de saint peter por merluza, parmesão de primeira pelos queijos de pacotinho vagabundos, creme de leite fresco pelo normal, echalota por cebola, salsa fresca por desidratada, nada de colocar um pouquinho mais de leite, ou mais um ovo - mas, sejamos realistas: já perceberam como os ovos hoje em dia estão aguados e sem substância? -, ou reduzir o tempo de cozimento, ou...). E, se tudo der certo, ou mesmo não dando (o que será mais provável!), vou registrar minhas aventuras pra quem se interessa possa!
Pra terminar, um lindo trecho de Julie & Julia, em que ela relata o mágico poder que a comida tem de nos fazer esquecer da vida (ou seria vivê-la plenamente, sem se deixar aborrecer pelas mesquinharias do cotidiano?) e nos transporta para algum lugar distante, caloroso e feliz:
Então eu fiz essa sopa, Potage Parmentier,
com a receita tirada de um livro de culinária publicado quarenta anos atrás, aquele que eu roubara de minha mãe alguns meses antes. E a sopa ficou boa - inexplicavelmente boa. Comemos no sofá, com as tigelas equilibradas nos joelhos, em um silêncio quebrado vez ou outra por risadinhas enquanto assistíamos a uma lourinha atrevida eliminar vampiros na televisão. Dali a pouco estávamos sorvendo os restos de nossa terceira e última porção (...). Algumas horas antes, após minha consulta com o ginecologista, enquanto olhava para as verduras e os legumes na mercearia coreana, eu me pegava pensando: "Estou com 29 anos, nunca vou ter filhos ou um emprego recente, meu marido vai me abandonar e eu vou morrer sozinha, numa casa caindo aos pedaços e afastada da cidade com mais de vinte gatos, e vai levar duas semanas para alguém sentir o cheiro". Contudo, para meu alívio, três tigelas de sopa mais tarde eu não estava pensando em nada.
Estava recostada no sofá, fazendo minha digestão, sossegada.
A sopa de Julia Child me deixara vulnerável.
.

2 comentários:

Ewan Love disse...

A qualiade de informação de seus 'posts' é inegável, mas isso não está atraindo muitos leitores né?

Tenho uma certa desconfiança do porquê.

Seus posts estão enormes!!!

Acredito que a receita de um bom blog, diferente de um bolo estravagante ou de uma comida exótica deve estar em posts concisos, como pequenas doses de um licor refinado e não como tonéis de informação.

Tenha isso como um elogio pois neste mundo tão fugaz é raro ver tanto conteúdo!

Um beijo do teu fan,

... disse...

Obrigada pela crítica construtiva.
Entretanto, acredito que nessas doses "megalomaníacas" de informação estão lentamente diluídas as pequenas doses do delicioso licor...
Basta ter paciência e ler.
ps.: não sou muito "fan" de fast food, em todos os sentidos
ps 2.: corrija seus eros de português, oras!